10 fevereiro, 2015

ÁGUA PARA OS CARIOCAS

ÁGUA PARA OS CARIOCAS




     Os 450 anos da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não se resumem apenas a festas. É também o momento de resgate de inúmeros episódios de sua riquíssima história que deveriam não só encher de orgulho os habitantes da cidade e do país, como também servir de inspiração para decisões administrativas no presente e no futuro. Um exemplo é a muito atual preocupação com o vital abastecimento de água para os milhões de habitantes. Contudo, deveriam todos saber que esta preocupação já era recorrente no início do século XIX.


Velho reservatório do Morro do Inglês, também chamada da Caixa D´água da Ladeira do Ascurra


      Do Maciço da tijuca brotavam ­ e brotam ainda hoje ­ mais de cem riachos que abasteciam a população de água potável. Mas a floresta luxuriante que cobria o maciço foi gradativamente derrubada para a extração de madeira, produção de carvão, plantações de café e instalação de chácaras de famílias da alta sociedade. Naquela época não existiam as noções de ecologia e sustentabilidade. Nem estes termos constavam nos dicionários. Mas, mesmo assim, o Imperador D. Pedro II teve a percepção de que aquelas nascentes, os cursos d'água e, consequentemente, a sobrevivência dos cariocas dependiam da mata que cobria a montanha. Foi então em 1861, em meio a uma das maiores secas de que se teve notícia, que o grande Monarca ordenou a desapropriação das chácaras e o consequente reflorestamento, o maior promovido até então no país. Sabe-se que, além da preocupação com a proteção dos mananciais, o Imperador tinha perfeita noção da influência da vegetação sobre o clima da região e sobre a proliferação dos insetos.


Major Manuel Gomes Archer

     O grande nome à frente deste investimento foi o Major Manuel Gomes Archer, que com a ajuda de uns poucos escravos plantou, ao longo de doze anos, cerca de 80 a 90 mil mudas, em boa parte produzida no Jardim Botânico, cuja existência, aliás, se deve a D. João, avô de D. Pedro II. Naturalmente o projeto esbarraria na resistência e oposição tanto da elite cafeeira, como dos moradores da região. Mas, felizmente, as necessárias remoções acabaram sendo levado a bom termo graças às habilidades políticas do Ministro dos Negócios da época, o Visconde de Bom Retiro, que é o outro nome que não deve ser esquecido.
      Segundo consta em artigo publicado no jornal O Globo de 7.2.2015, este episódio da história da cidade, serviu para desmistificar a ideia então vigente, de que a água no Brasil é um recurso inesgotável. 150 anos após o trabalho de Major Archer as árvores estão gigantescas e a Floresta da Tijuca, esta joia verde como a conhecemos hoje, incrustada na megalópole é hoje a maior floresta artificial urbana do mundo e, sem ela, o Rio de Janeiro não seria a Cidade Maravilhosa.
      O autor destas linhas viveu sua infância e adolescência na Ladeira do Ascurra, situada no Cosme Velho, e um dos acessos à Floresta. 


Reservatório do Morro do Inglês na Ladeira do Ascurra (Atualmente) 

        Com saudades lembro-me dos piqueniques e jogos de bola em cima da Caixa D'Água que, embora desativada na década de 1960, se encontra lá até hoje. Foi construída em 1868, e captava água do Rio Silvestre, afluente do Rio Carioca, e chegou a abastecer o Bairro de Laranjeiras, a casa em que eu morava inclusive. Este reservatório é apenas um de muitos que foram instalados nas encostas do Maciço da Tijuca para atender as diferentes regiões da cidade. Com o crescimento da cidade, outras soluções foram providenciadas, como a captação em grande escala de água do Rio Paraíba do Sul, através do Sistema Guandu. Porém, como sabemos a falta de chuvas no Sudeste hoje vem ameaçando também este sistema.
       Mas, graças a D. Pedro II, as águas límpidas da Floresta da Tijuca continuam à disposição, descendo as encostas. Segundo notícias recentes, o Secretário Estadual do Ambiente vem estudando a possibilidade de voltar a aproveitar o manancial para ajudar no abastecimento. 

"Majestade, lhe devemos mais essa!"


 Bruno Hellmuth  - Chanceler do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro

Um comentário:

  1. A esse importante artigo do chanceler Bruno Hellmuth devemos agregar um nome importante, que foi o do barão de Escragnole, que deu continuidade ao trabalho do major Archer, aquele foi também militar do exército, oficial de artilharia com enormes serviços prestados nas lides do Paraguai. O major Archer passou a ser o administrador da Fazenda Imperial de Santa Cruz. Outra iniciativa importante de D. Pedro II, visando o abastecimento de água do município neutro, implementada através do seu ministério foi a criação da reserva do Tinguá, no município de Iguassú, hoje mais conhecido como Nova Iguaçu; o proprietário da área desapropriada Francisco Pinto Duarte, cavaleiro da imperial Ordem de Cristo, veio a ser o 2º barão de Tinguá, por entre outras coisas o apoio ao Asilo dos Inválidos da Pátria, e antes no conflito com o Paraguai o estímulo aos batalhões de voluntários da pátria da província do Rio de Janeiro.

    Luís Severiano Soares Rodrigues

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