09 outubro, 2012

O Triste Leilão do Paço de São Cristóvão


Enviado por Jean Menezes do Carmo








Sofá de jacarandá e tapeçaria aubusson do Salão dos Embaixadores. Foto do século XIX tirada com a peça já na residência da família Modesto Leal e a escrivaninha de Dom Pedro II, estilo Império. Mogno com ornatos de bronze e tampo de couro. Foto da época.
O grande, imenso e malfadado leilão de arte do Paço de São Cristóvão, feito com os bens da Família Imperial banida pela República, foi realizado entre 8 de agosto a 5 de dezembro de 1890, durando, portanto, 5 meses. Ao todo, foram realizados 18 pregões, incluindo-se os três leilões efetuados na Fazenda Imperial de Santa Cruz. Só para o leitor ter uma idéia do aconteceu, todos os bens leiloados foram avaliados em 190:000$000, quantia que mal dava para comprar dois carros do Imperador, o Monte de Ouro, cujas guarnições eram douradas, e o Monte de Prata, cujas peças eram de prata de lei, comprado na época da Regência, em Londres (1837). 
 A Imperatriz Dona Tereza Cristina Maria de Bourbon falecera na cidade do Porto em 30 de dezembro 1889, 45 dias depois da proclamação da República. Imediatamente foi aberto o inventário dos seus bens, na Capital Federal, pelo procurador de D. Pedro II. Em fins de julho de 1890 os jornais do Rio de Janeiro anunciaram a venda que faria o leiloeiro Joaquim Dias dos Santos, autorizado por alvará do Juiz de Direito da 2ª Vara de Órfãos, dos bens pertencentes à família Real no Palácio da Boa Vista, em São Cristóvão. Com a notícia, começou um grande murmúrio de censura à indiferença do Governo que não se mostrou interessado em adquirir tantas peças e objetos de arte e de história existente no palácio. Pelo contrário, a idéia dos republicanos era de que nada que lembrasse o regime deposto fosse comprado... "Ao algoz, não interessa ver o fantasma da vítima", escreveu Francisco Marques dos Santos.

Na verdade, é bom que se diga que o Governo Imperial tinha mais apoio popular que a "República", proclamada com um certo ar de golpe de estado. A pressa em deportar D. Pedro II embutia o medo que o boníssimo Monarca pudesse comandar uma revolta contra o novo regime, o que de fato aconteceria, se ele quisesse. Mas D. Pedro II não queria derramamento de sangue no país que tanto amava, e foi embora, triste e magoado com a ignominiosa traição. Daí é fácil entender a pressa com que trataram a realização do leilão.
 Antes do leilão, D. Pedro II, cheio de recordações, mandou buscar os objetos que mais estimava: coisas de família, presentes pessoais, quadros históricos e de família. Ainda sem saber que o museu e sua biblioteca da Quinta de São Cristóvão também seriam arrolados, ele escreveu de Paris. Com sua magnanimidade doou seus livros à Biblioteca Nacional e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro sem nada receber em troca. Das coleções existentes, o ex-Imperador só queria a pequena coleção numismática, sem muito valor porque as moedas de ouro, algumas muito raras, tinham sido roubadas (?), assim como alguns objetos de estimação pessoal. Quanto aos seus papéis, incluindo a correspondência particular, ele queria que lhe fosse entregue. O que fosse de interesse para a história do Brasil e mesmo alguns importantes que se referem à história de Portugal, ele cederia para a biblioteca ou o IHGB. "No entanto - diz Francisco Marques dos Santos -, a propósito de uma coisa que à nação iria pertencer pelo espontâneo patriotismo de seu dono, gastaram muita tinta os prelos e as unhas dos custodiadores do regime que se carcomeu em outubro de 1930".  Na época do leilão o Jornal do Commércio escreveu: "E é por isso que foi para lastimar a precipitação com que o Governo Provisório decretou essa alienação que afinal se mostrou desnecessária".
 Em 8 de agosto de 1890, o mesmo Jornal do Commércio publicou o catálogo do primeiro leilão. Mas, antes de relatar o que ocorreu nesses leilões, é importante reproduzirmos aqui o impressionante relato de Francisco Marques dos Santos, que com maestria deixou para a posteridade o sentimento de perda e desolação existente na época e que ainda indelevelmente persiste:
 "Em seguida ao banimento da família reinante o grande edifício do Paço, imponente na sua simplicidade patriarcal, portas largas e múltiplas janelas cerradas, apresentava uma indizível tristeza, embora os jardins continuassem floridos, houvesse movimento nas ruas da Quinta, no ir e vir das inúmeras famílias que lá habitavam, além dos empregados das coudelarias e abegoaria imperial.
 No portão principal via-se arrancada a coroa imperial, igualmente no portão da Cancela as iniciais P. II e no portão da Estrada de Ferro arrancado o I do conjunto Q.B.V., além da coroa.

Apenas, atestando que ali morara o Imperador, via-se, bem no alto, na platibanda da fachada do edifício: P. II.! Oxalá um dia retorne àquela altura a sigla iniquamente apagada. Lá nasceu e passou os dias felizes de seu longo reinado, o grande brasileiro! Lá é a casa de Pedro Segundo!
 Entre museu e sepulcro era impressão geral da majestosa casa. Os salões fechados, ermos, em meia treva apresentavam desolador aspecto. À medida que os leilões se realizavam foram os móveis deslocados e desaparecendo na voragem para o desconhecido, seguindo o fadário das cousas que erram e sofrem vário destino. No casarão reinava o silêncio. 
 No primeiro andar, à medida que se transpunha as profundas e sombrias salas, pareciam surgir fantasmas de titulares defuntos, ao mesmo tempo que se divisavam objetos impressionantes. Os enormes espelhos semelhavam portas para outros salões paralelos, de maior obscuridade e maior mistério. Retratos de personagens surpreendiam o visitante com irônica indiferença. Sem dúvida, em São Cristóvão havia assombrações...
 Estátuas de mármores avançavam dos cantos em penumbra, em lívidos gestos, estacando logo, ao se deter o olhar sobre elas! Recordaremos o mármore do Menino Adormecido, feito em Milão por Antonio Argenti, artista italiano. Era uma criança entregue ao sono sobre a cadeira, com a cabeça repousando no espaldar. Obra primorosa, de magistral execução! Semelhantemente o Aventureiro Espanhol, a Mulher e a estátua de prata de Pio IX (seguiram para a Europa) e tantas outras que foram vendidas.
 As salas das grandes recepções da coroa ainda armadas, tal qual, com suas mobílias preciosas e as paredes em tapeçaria de vermelho e ouro. Depois da opulenta ante-sala que se atravessava com instintivo respeito - pisando felpudos tapetes, onde todo o rumor de passos se amortecia, - chegava-se à sala do trono. O abandono emprestava-lhe o solene das capelas, dos ambientes votivos. O trono, elegante e simples, em marfim, ouro e esmalte azul, forrado de veludo verde com ramagens e sigla bordada a fio de ouro, sob docel de veludo verde, assento em estrado igualmente de veludo da mesma cor, evocava um grande passado, um regime que trouxera à Pátria tranqüilidade e bem estar.
 Esta sala era forrada por grande tapete aveludado, nela se viam ainda: uma rica mesa oval, de jacarandá claro, envernizado, com finas esculturas, trabalhos de marquetterie, tendo delicado mosaico sobre o tampo. Aos lados do Trono, assentavam em colunas trabalhadas de jacarandá, dois grandes vasos de Sèvres, com ricas pinturas a esmalte, asas de bronze dourado.
 Dois lustres de bronze dourado, com 12 velas cada um, com figuras esculturadas e mangas de cristal com coroa, iniciais e ramos de fumo e café ornamentavam esta nobilíssima sala do Império, onde os diplomatas e os grandes da corte reverenciavam a S.M. o Imperador. Ali fora o primeiro salão do Império. Ali esplendera em realeza o manto verde do Bragança Brasileiro, como em papo de galo da serra e de tucano o cacique americano.
 Contígua ficava a sala das recepções, dos estrangeiros ou dos Embaixadores, forrada de grande tapete Aubusson, com lindo desenho. Seu mobiliário constava de sofá, quatro poltronas e doze cadeiras de palissandre, (jacarandá), envernizado, guarnecidas de bronze e coroa Imperial, estofadas de damasco e seda lavrado. Dois magníficos dunquerques guarnecidos de bronze dourado a fogo, tampos de mármore e portas de espelho francês, encimados de dois soberbos espelhos de cristal francês, em molduras de palissandres, ornados de bronze dourado, coroa e iniciais. 
 Um dunquerque ostentava dois candelabros com figuras, para cinco luzes, ladeando rica taça cinzelada, tudo de bronze dourado. No outro, dois candelabros de bronze, do mesmo gênero e ao centro uma pêndula dourada a fogo, com figuras esculturadas e dragões, obras de sabido valor. Duas peanhas de jacarandá eram encimadas por vasos de bronze dourado a fogo, com delicado trabalho de cinzel. Dois ricos lustres de bronze dourado pendiam do teto de fino estuque, decorado com medalhões. A um canto da sala, um relógio armário...
 Completava o requinte desta sala o retrato em corpo inteiro de Dom Pedro II, por Raymond Monvoisin de Quinsac, o mais belo e o mais verdadeiro que até 1847 pudera um artista fazer, figurando o Imperador no viço dos vinte e dois anos de idade e sete de governo. 
 Em São Cristóvão os visitantes ilustres e os diplomatas eram recebidos na sala dos embaixadores e levados à sala do trono, quando o cerimonial assim determinava. Fora disso, Dom Pedro II recebia os amigos, ministros, conselheiros de estado e visitantes da terra em seu gabinete, em sua Biblioteca, ou na sala do Conselho do Estado, a das sabatinas. Não raro, também na sua sala de visitas, a de n.º 20 do catálogo do leilão. Não era esta uma sala de estado, antes possuía um cachet da dona de casa. S. M. a Imperatriz lá recebia ministras, consulesas, damas graduadas que a visitavam". 
Fonte: I Anuário do Museu Imperial / Francisco Marques dos Santos, jornais da época e documentos de coleções particulares.

Francisco Marques dos Santos 

Francisco Marques dos Santos nasceu no município de São Gonçalo, Rio de Janeiro, em 1899, era especialista em História da Arte e Numismática. Foi membro do Conselho Consultivo do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde a sua fundação em 1937 e também membro do conselho artístico da prefeitura do Distrito Federal (Rio de Janeiro). Por vários anos dirigiu o Museu Imperial de Petrópolis e atuou ainda como examinador da antiga Escola Nacional de Belas Artes e como consultor nos setores de história da arte e numismática do Dasp. 
 Autor do texto "O Leilão no Paço de São Cristóvão", que se encontra no Anuário do Museu Imperial, o historiador publicou uma infinidade de trabalhos em livros e revistas especializadas, tais como a tese "A Guerra do Paraguai na medalhística brasileira" (1937); "Louça e Porcelana Brasileira", em As Artes Plásticas no Brasil (1952); "O ambiente artístico fluminense à chegada da Missão Francesa em 1816", na Revista do serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1941); "Artistas do Rio Colonial" e "Contrastes de Prateiros do Rio de Janeiro", na revista Estudos Brasileiros, além de diversos artigos regularmente publicados na Revista Numismática.

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